março 12, 2006

 

O PINTARROXO


«Hoje, dia de Entrudo, vamos comer um caldinho de azeite, porque estamos em dieta rigorosa. O médico que nos recomendou isto é um bocado azarento!... Mas, diz ele, que tenho os intestinos corrompidos de beber tanta vinhaça americana! Como tenho uma correia para apertar o estômago e vão arrancar as videiras, talvez melhore da barriga. Vou passar a beber vinho de seis tostões o quartilho, visto não poder beber água; basta falar-me nela para apanhar uma constipação! Se for obrigado a bebê-la, duro pouco tempo, e é uma pena morrer...»
Pintarroxo, 5/3/1935

 

DIA DE ENTRUDO




Rebordosa, 5-3-1935

Devido ao mau tempo, só foi realizado este domingo o leilão das prendas oferecidas pela zona central, oferecendo um panorama lindíssimo o cortejo até à Igreja Paroquial, organizado pelos seus beneméritos. Em frente vinha a guarda avançada a cavalo em jericos e trajes carnavalescos. A afinação era boa, porque o maestro impunha respeito com a sua batuta de troço de couve!
As minhas notas mal alinhavadas representam a expressão da verdade, nem de outra maneira sei pensar ou escrever, visto continuar a ser um acérrimo defensor da Pátria e da Denmocracia, que é também da colectividade.
Continuam os leilões de prendas, e quando pertencer às nossas briosas raparigas, cá estou eu, apesar de velhote, para as levar ao mais alto preço... conforme o seu valor, é claro!
E o meu coração sente-se alegre, pugnando por esta Cruzada do Bem, e com benefício para mim próprio, porque vendo muito mais vinho e iscas de bacalhau.
No domingo, até as espinhas do dito foram, e por bom preço, graças a Deus! Oxalá que isto continue por muito tempo, a ver se posso equilibrar o orçamento!...
Miséria – O que se passa por esse mundo fora é digno de compaixão! Neste dia de Entrudo, quantas famílias sem pão, sem lar e sem um bocadinho de carne para mitigar a fome! Como há-de ser desesperado este viver! Eu, graças a Deus, sou remediado, com orgulho o digo... matei um cevado há um mês juntamente com os meus garotitos, comemos o resto ao domingo gordo! Como vêem, foi poupar muito, porque ele era grande!
Hoje, dia de Entrudo, vamos comer um caldinho de azeite, porque estamos em dieta rigorosa. O médico que nos recomendou isto é um bocado azarento!... Mas, diz ele, que tenho os intestinos corrompidos de beber tanta vinhaça americana! Como tenho uma correia para apertar o estômago e vão arrancar as videiras, talvez melhore da barriga. Vou passar a beber vinho de seis tostões o quartilho, visto não poder beber água; basta falar-me nela para apanhar uma constipação! Se for obrigado a bebê-la, duro pouco tempo, e é uma pena morrer...

Pintarroxo

 

COMUNHÃO SOLENE


Rebordosa, 4-6-1937

Realizou-se no primeiro Domingo, 30 de Maio, a comunhão solene às criancinhas de ambos os sexos, desta freguesia.
Foi deveras impressionante e sugestiva, pois o nosso Reverendíssimo Pároco Padre José de Oliveira Mendes, quis dar-lhe um brilho inesperado, comovendo a grande assistência religiosa!
Como sacerdote é novo na nossa terra, como conduta cívica e aprumo moral é digno dos maiores louvores do povo desta freguesia, sem distinção de credos políticos.
Alguns há, que julgando-se mestres no sacerdócio, erram pela sua pompa!
GVanitas vanitatum et omnia vanitas.
A educação e instrução com um verdadeiro sentimento cristão leva as criancinhas para a perfeita emancipação humana.
Eu já sou velho, mas ao ouvir as metódicas palavras do grande orador sagrado Padre Adriano Moreira Martins, digníssimo Vigário da Vara e Abade de Santo Ildefonso, as lágrimas brilharam... relembrando a minha primeira comunhão.
Que saudades eu sinto desse dia!
Ainda vejo na minha frente essa figura inesquecível e correcta do Padre Albino Pacheco Dias Torres, nesse tempo Abade em Besteiros, que me dizia: Ó José, tem juízinho, senão puxo-te pelas orelhas, ouviste?
Depois chamava-me à sua residência e dava-me uma fatia de pão de ló. Deus já levou esta figura de gigante, mas eu ainda recordo com lucidez espiritual aquele que pelas suas mãos me deu o primeiro pão celestial, que tonoficou o meu coração.
Parabéns ao sr. Abade de Rebordosa e distinto pregador por conseguirem apanhar mais esta ovelha desgarrada.

Pintarroxo

 

VENDA DO CAPACETE DO ANO

Rebordosa, 20-7-1937

Organizada pelo valente Sargento do Exército Manuel Coelho de Mendonça e Agostinho Ribeiro da Cruz, muito competente Regedor desta freguesia, foi promovida a venda do Capacete na festa de Santa Luzia, que se venera no lugar do mesmo nome.
Contribuíram graciosamente e requintada fidalguia para tão simpático fim as gentis meninas Maria de S. José Carvalho, Maria Zélia Carvalho e Maria Luisa Carvalho, de Mirandela, mas neste dia eram visitas honrosas do grande industrial local Joaquim Moreira dos Santos e de sua esposa, D. Maria Emília da Costa Pereira, inteligente professora local.
Satisfatoriamente colheram 108$20, cujo produto seguirá o seu bom destino, e nesse dia, as viúvas e órfãos da Grande Guerra, pagarão com lágrimas e sorrisos quem auxiliou e teve tão louvável iniciativa.
Exames do 2.º grau – Realizaram-se nas escolas da Vila de Paredes os exames do 2.º grau dos alunos do sexo masculino, da escola da Lage desta freguesia, cuja direcção está confiada à competente professora D. Maria Emília da Costa Pereira, sendo os resultados satisfatórios, como era de esperar.
Fizeram exame os seguintes meninos: Albino Correia, Américo Moreira Dias, António Joaquim Nunes Moreira dos Santos, Augusto Moreira dos Santos Pinto da Rocha, Carlos Alfredo Pereira dos Santos e Carlos Fernando Nunes dos Santos.
São dignos das mais honrosas referências e lícitos elogios os distintos professores e professoras que faziam parte do júri, pela maneira afável e fino trato como sabiam interrogar as crianças.
Digo-o porque assisti, e gostaria de ser criança para fazer exame outra vez na escola do professor Vasconcelos.

Pintarroxo

 

FESTIVIDADE

Rebordosa, 29-9-1937

Realiza-se hoje nesta freguesia a festa em honra do nosso Padroeiro S. Miguel, que se venera todos os anos com sentida piedade.
Este ano tem mais brilho, pois tem a afamada música de Vilela, e como pregador o distinto sacerdote Padre Faria, muito conhecido em Paredes e nos seus artigos jornalísticos...
Desastre – No lugar do Entroncamento da vizinha freguesia de Lordelo, houve um choque violento entre o sr. António Alves Lamas, motorista e Casimiro da Costa Leal.
Encontram-se os dois em estado grave, desconhecendo eu a causa que originou o desastre.
Bem faço eu que ando sempre a pé, e mesmo assim, ainda caí outro dia, quando vinha alegre e bem disposto de casa do sr. Zeferino, de Paredes...

Pintarroxo

 

CERIMÓNIA DO LAVA-PÉS

Rebordosa, 20-4-1938

Na quinta-feira santa e na igreja paroquial desta freguesia, houve este ano a comovente cerimónia do lava-pés, sendo escolhidos para tão honroso fim os mais velhos e desprotegidos da sorte. Num estrado brilhantemente ornamentado, sentaram-se 12 pobrezinhos e pelo Reverendíssimo Pároco José d’Oliveira Mendes, acompanhado de mais dois eclesiásticos, foi iniciado o atraente acto religioso, comovendo sinceramente todos os corações de verdadeiros crentes! No fim foi distribuída uma esmola de 2$50 a cada um, havendo sermão pelo orador sagrado Padre Virgínio Guimarães, abade em Duas Igrejas. A iniciativa do nosso Pároco foi muito aplaudida por todos os bons católicos.

Pintarroxo

 

CERIMÓNIA DO LAVA-PÉS

Rebordosa, 20-4-1938

Na quinta-feira santa e na igreja paroquial desta freguesia, houve este ano a comovente cerimónia do lava-pés, sendo escolhidos para tão honroso fim os mais velhos e desprotegidos da sorte. Num estrado brilhantemente ornamentado, sentaram-se 12 pobrezinhos e pelo Reverendíssimo Pároco José d’Oliveira Mendes, acompanhado de mais dois eclesiásticos, foi iniciado o atraente acto religioso, comovendo sinceramente todos os corações de verdadeiros crentes! No fim foi distribuída uma esmola de 2$50 a cada um, havendo sermão pelo orador sagrado Padre Virgínio Guimarães, abade em Duas Igrejas. A iniciativa do nosso Pároco foi muito aplaudida por todos os bons católicos.

Pintarroxo

 

MANUEL MARTINS MOREIRA

Rebordosa, 10-5-1938

Aparecia o sol no Oriente esbranquiçado duma manhã do mês de Maio, quando a morte veio roubar-nos o inocente Manuel Martins Moreira. Nove anos em flor, cheio de graça e de luz, mas Deus quis chamá-lo à sua eterna guarida por ser o netinho mais afável do sr. Joaquim Martins Moreira.
Pareciam-se como pombas brancas, as faces rosadas na inocência, as maneiras afáveis como tem seu Pai e toda a sua família são o requinte honroso que as reveste!
Andar a procurar ninhos à beira dos regatos de água cristalina é um rouxinol a cantar procurando com suavidade o hino de Deus, entre florestas aonde existem pétalas e flores cheias de verdadeiro e puro aroma.
Seus pais ficaram mergulhados numa cruciante dor, mas a demonstração do funeral veio demonstrar quanto são queridos estes amigos de Rebordosa, e freguesias circunvizinhas.
Conduziu a chave do ataúde o irmão do finado sr. Joaquim Martins Moreira, negociante local, cujas lágrimas comoveram toda a assistência.
Pintarroxo

março 11, 2006

 

DIGRESSÃO INFANTIL DAS CRIANÇAS

Rebordosa, 12-7-1938

Quiseram este ano as digníssimas professoras do sexo feminino e masculino dar às crianças um lindo passeio cujo panorama no lindo Minho entre cânticos escolares muito sensibilizou a petizada!
São recordações que ficam sempre marcadas na memória da vida destas pombas brancas, futuros pais e mães do nosso querido Portugal.
Foram duas garotitas minhas e quando regressaram do passeio perguntei-lhes: Entaõ gostasteis do passeio minhas filhas?
Muito, meu Pai! Só tivemos muita pena de Nossa Senhora, pois chorava muito quando os judeus lhe estavam a matar o Filho, coitadinho! É o nosso Senhor, não é?
É, meus queridos anjos. Tanto sofreu por nós, tanto desejava deixar uma sociedade perfeita, e afinal nos tempos que vão correndo só encontramos parasitas, uns verdadeiros exploradores da humanidade!
Este quadro lancinante passou-se em Braga no Bom Jesus.
Recordar é viver, e por isso eu hoje cheio de responsabilidades morais e materiais, tenho saudades imorredoiras da minha infância.
Pintarroxo

 

AUGUSTO PINTO DA ROCHA

Rebordosa, 15-8-1938

Pela tarde tórrida do dia 9 do corrente mês, foi brutalmente arrancado - que digo, meu Deus? - foi docemente arrebatado, nas asas dos Anjos, para o Céu, o menino Augusto Moreira dos Santos Pinto da Rocha, filhinho muito estremecido do ilustre correspondente de «O Progresso» nesta localidade, o nosso amigo José Pinto da Rocha e de sua esposa D. Margarida Moreira dos Santos.
Bem dolorosos, bem amargurados foram os 12 anos da existência desta criancinha. Doente desde o berço sem que lhe valessem os esforços da ciência médica, passou uma vida constantemente martirizada e martirizou igualmente seus amantíssimos pais, que o idolatravam e que, apesar de todos os esforços, nada lhe puderam fazer para o salvar.
E foi assim que Deus, condoido de tanto sofrer, o mandou chamar à Corte Celestial, ao seio dos Anjos, em cujo rancho se foi certamente incrporar e onde vive a pedir a Deus que torne mais benigna a vida dos seus sutores e abençoe seus carinhosos irmãos.
O seu enterramento, que foi muitíssimo concorrido e no qual se incorporou tudo o que há de melhor na nossa sociedade e na das freguesias vizinhas, efectuou-se na manhã do dia 11.
Após a distribuição de algumas dezenas de lindíssimos «bouquets» de flores naturais com tocantes dedicatórias, foi posto em nadamento o cortejo fúnebre, tendo sido organizados, para segurarem as borlas do caixão, os seguintes turnos:
1.º - Joaquim Moreira dos Santos, Mário Pereira dos Santos, Manuel Moreira dos Santos e José da Costa Pinto.
2.º - Domingos de Azevedo, Carlos Rangel, Joaquim Ribeiro (Vilela) e António Ferreira dos Santos.
3.º - José Ferreira dos Santos, António Ferreira dos Santos, Carlos Seabra e Manuel Martins Leal.
4.º - Amadeu Moreira dos Santos, José de Bessa, Zeferino Coelho Leal e Albano Machado Leão.
5.º - Carmindo H. de Carvalho Maia, Manuel Martins Moreira, Alberto Rangel e Alberto Ferreira dos Santos.
6.º - Albino Moreira dos Santos, Manuel Coelho de Mendonça,Agostinho Ribeiro da Cruz e António Moreira da Silva.
A chave do caixão foi conduzida pelo seu padrinho, excelentíssimo senhor Dr. Bernardo Augusto Pereira Leite.
P.
(Pintarroxo terá sido o autor deste texto, assinando como P. devido ao terma em questão. Nunca houve em «O Progresso de Paredes» qualquer colaborador a assinar como P.)

 

AINDA A FESTA AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Rebordosa, 29-8-1938

Só um Pai amantíssimo poderá saber avaliar e sentir a dor do seu coração esfacelado quando lhe morre um ente querido!
As pulsações fraquejam, o sangue corre irregularmente, a caneta treme, e as lágrimas de verdadeira ternura e saudade coalham o papel em que escrevo.
É que eu possuía uma relíquia há 13 anos, mas Deus quis levá-la para si, talvez, para a não deixar passar horas de amargura como sofre sua Mãe.
Resignação sim, porque o homem põe, mas Deus dispõe, sempre com a bondade imperiosa que lhe pertence.
Assisti ao tríduo do Coração de Jesus e as palavras eloquentes do Venerando orador e excelentíssimo senhor Cónego Pereira Pinto, de Lamego, penetraram na minha alma e tonificaram o meu coração, atenuando-lhe a mágoa.
Foram alguns dias que vivi em perpétua comunicação com meu saudoso filho, e nunca podendo igualar o sofrimento e dor do Sagrado Coração de Jesus!
Eu, verdade seja, não tenho sido um grande frequentador da Igreja, mas sinto-me feliz, dizendo esta verdade.
Pintarroxo

 

OBRA DAS MÃES PELA EDUCAÇÃO NACIONAL

Rebordosa, 29-8-1938

Não é fácil descrever a alegria que sentem os verdadeiros chefes de família nesta freguesia, por saberem que ainda existem no nosso querido Portugal corações generosos e de requintada fidalguia, e que com os seus conselhos e acções venham atenuar a amargurada dor dos pobrezinhos oprimidos!
Li e reli o folheto enviado pelas excelentíssimas senhoras D. Manuela d'Orey e D. Maria Ferreira Pinto, Quinta do Saldanha - Sintra - referente às «famílias numerosas».
É um encanto e orgulho para a nossa raça de verdadeiros Portugueses, ter na terra, almas enviadas de Deus, que venham suavizxar as aguras duma vida exausta de aflições, canseiras e dores maternas, como sucede às verdadeiras mães!
Mas quem seguir os conselhos doutrinários do folheto referido, encontrará o lenitivo confortável para os seus sonhos ambicionados.
Nesta freguesia, vão requerer os boletins todos os chefes de família com mais de quatro filhos legítimos com o seu lar legalmente constituído, encontrando-me eu já autorizado a fazer tão prestimosa requisição.
Claro está que aqueles que precisarem encontram-me sempre ao seu dispor na minha modesta choupana.
Mãos à obra porque desanimar é morrer, morrer é perder a vida, é perder todo o nosso sonho dourado.
Aconselho-o porque talvez não haja quem não tenha mais triste do que eu o seu pobre coração.

Pintarroxo

 

UM LAR DESFEITO

Rebordosa, 13-2-1939

Ainda existe nesta freguesia uma casa sombria e triste e que ainda há pouco tempo, mesmo entre a solidão dos montes, as andorinhas criavam seus filhos, meigamente, nos seus pequeninos ninhos!
Surgiu inesperadamente uma impetuosa tempestade e as andorinhas, dendo o seu ninho desfeito, não esperaram pela Primavera, ei-las próximas do Oceano, aguardando o auxílio do vento para poderem arribar!
Foi assim que sucedeu a um modesto casal que procurando ganhar o pão nosso de cada dia, para seus filhinhos, honradamente, um veio encontrar a morte tirana distante do seu ninho!
À triste fatalidade ninguém escapa, porque Deus dispõe sempre dos nossos desígnios!
13 de Fevereiro, dia dos meus anos, dia de lágrimas com resignação!... Um pombo que subiu ao céu, Luís Paulo dos Santos Pinto da Rocnha - Fui chamado pelo telefone para ir ao Porto, imediatamente, porque um filho meu tinha tido um pequenino ferimento no lábio superior. Como o sangue continuava foi internado no Venerando Hospital da Misericórdia sob a distinta hospitalidade e carinho dos senhores doutores Almeida Garret e Fonseca e Castro.
Como não se aimentava teve alta no dia seguinte, mas ainda foi tratado pelos diníssimos Dr. Baía Ribeiro e Dr. Mengo de Abreu.
Poderá o coração esfacelado dos pais fazer mais?
A todos que contribuiram para atenuar a nossa dor, e nos proporcionaram algum alívio, o nosso profundo reconhecimento.
Pintarroxo

 

COMUNHÃO SOLENE ÀS CRIANCINHAS

Rebordosa, 10-6-1939

Há 33 anos que na pequenina Ermida de Besteiros, cujo Pároco de saudosa memória era o Reverendíssimo Padre Albino Pacheco Dias Torres, foi a minha primeira comunhão.
Que alegria eu senti nesse dia, tendo-o ainda bem vincado na memória...
33 anos são passados com poucos minutos de alegira, comparando-os com as responsabilidades morais e materiais que voluntariamente contraí.
Como Deus é grande na sua Omnipotência, e foi aos 33 anos crucificado, chego às vezes a pensar que desanimar é morrer, é perder a vida, é perder tudo!
Tenho um pombal à beira-mar com cinco pombinhos, e desejava que fossem todos alimentados com o pão Celestial, mas três já foram chamados pela Providência à sua guarida. Cinco, só cinco tenho a meu lado, coitadinhos!
Assisti à comunhão solene em Rebordosa, vi lágrimas e sorrisos, como nos tempos do Reverendíssimo Abade desta freguesia, Padre Manuel Martins da Costa.
O nosso jovem Pároco, como verdadeiro ornamento de classe a que pertence, quis este ano e muito bem, desviar os seus paroquianos de gastar inutilmente, em pão de ló e doces, aquilo que tantas vezes lhes fazia falta e sérias apreensões durante o ano, e com razão. Pois o efeito da prática foi contraproducente, como se verificou.
Assim como o leito dum rio é difícil de mudar ou desviar do mar, assim o povinho da nossa terra, metendo o nariz... é lá para a frente!
Prendas e enormes tabuleiros de doces em honra da menina Esmeralda, filhinha querida e gentil de Joaquim Moreira dos Santos e sua excelentíssima esposa D. Maria Emília da Costa Pereira!
O pão de ló era bom e o senhor Abade o poderá dizer, porque também comeu algum quando assistiu com seus ilustres colegas às provas, não é verdade?
Meu cunhado Albino Moreira dos Santos tinha tantas roscas de pão de ló e doces em honra de sua filhinha, que não cabendo por cima das mesas belamente ornamentadas, estavam por cima das camas, sob a vigilância disciplinada do digníssimo compadre e distinto Tenente da Guarda Republicana Ernesto M. Santos.
O António Carlos Martins e Manuel do Bairro, em honra de seus filhinhos, mobilizaram todas as carreteiras para levarem para sua casa pão de ló e doces. Até deixaram de comprar trigo aos padeiros, eubstituindo-o por esta doçura na primeira semana.
Também admirei duas coisas: as músicas dos Bombeiros Voluntários de Paredes, que pela primeira vez veio a Rebordosa e agradou! E os doceiros radiantes por ser o primeiro ano do melhor negócio que fizeram.
Pintarroxo


março 09, 2006

 

VIDA DESESPERADA

Rebordosa, 1-4-1940

Embora tardiamente, seria uma ingratidão não dar as Boas Festas a todos os que trabalham em «O Progresso de Paredes», nas pessoas de Camilo Ruão e Alexandre da Fonseca. Mas, como sabem, a maior parte do meu tempo é viver com minha esposa e filhos no Porto, para onde fui arremessado por circunstâncias imperiosas da vida!
Tudo tem corrido bem, excepto o dinheiro que tem sido refractário aos costumes desejados!
Outro dia tive uma alucinação trágica: meter-me debaixo dum eléctrico!
Mas, uma inspiração divina chegou; achei-o pesado, sentei-me no passeio da rua e deixei-o passar!...
Foram testemunhas oculares os meus inseparáveis amigos Tenente Ferraz e Manuel Torres.

Pintarroxo

 

FESTAS E ROMARIAS

Rebordosa, 17-6-1940

Como nos anos anteriores, realizou-se nesta Freguesia de Rebordosa a festa à venerável Santa Luzia, patrona de quem escreve estas linhas, pois, de contrário, não poderia escrever por falta de vista.
Foi imponente, não se lembrando os forasteiros das agruras da guerra, que pela benção de Deus, não avassalou a minha ditosa Pátria!
Breve se sentirão os clamores que já sofre todo o mundo, mas, como Deus é grande na sua Omnipotência, ainda poderá remediar tudo, para bem da humanidade massacrada!
Escutei atentamente as duas afamadas músicas de Baltar e Cete e nunca vi o Emídio Nogueira tão aprumado na sua requintada e aprumada regência musical. Só algo triste, por não levar as costumadas pétalas, mas tenha paciência que eu agora resido no Porto, aonde tenho o meu encantador lar. Esteve a meu lado contemplando a festa, o meu amigo Barros, que regressou há pouco do Brasil, e disse-me que, no próximo ano, pagará só ele uma música e todo o foguetório, se Deus lhe der vida e saúde! Permita a Omnipotência que se realize o seu magnífico sonho.

Pintarroxo

 

A CAMINHO DO CÉU

Cristelo, 14-9-1940

Uma tarde, estava eu a chegar do Porto a casa de meus pais, sob um calor abrasador, quando me disseram: É agora o funeral da pequenina Cinda, filha do seu primo José Ferreira Barbosa e Lizarda Ferreira dos Santos!
Como era dever meu, dirigi-me a Figueiró, para acompanhar o primeiro fruto de amor dos meus primos.
Cheguei lá e no pequenino esquife em que adormeceu, lá estava a Gracindita, coberta de flores, com um faustoso acompanhamento, do qual fazia parte a Banda da Boa Nova, de Vilela, que com seus requintados hinos musicais a acompanhou ao cemitério! Lágrimas nos olhos dos pais, quando deviam sorrir; lágrimas nos olhos dos avós paternos, quando deviam cantar! Os avós maternos e de triste saudade, lá aguardam no Céu a chegada da sua querida netinha!
Felizes de todos que partem nesta idade, para não assistirem à tempestuosa catástrofe que avassala o mundo pelas ambições descabidas, falta de bom senso e temor a Deus!

Pintarroxo

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